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Depoimentos

“A escuridão que eu conheço bem”

Relatos anônimos de adultos que foram abusados sexualmente na infância.

Viviane Almeida Moreira

             Algumas crianças que passam pelo trauma do abuso guardam o ocorrido com elas mesmas para sempre. Isso ocorre muitas vezes pelo medo de contar para alguém e o pior acontecer, por ameaças feitas pelo abusador, por indiferença, por só descobrir que aquilo é errado depois de anos ou simplesmente por não se sentirem seguras em compartilhar. Contar sobre esses eventos é um ato de coragem. Algumas pessoas se dispuseram a compartilhar o ocorrido. Todos os nomes são fictícios para não comprometer as vítimas.

 

(Atenção, os relatos a seguir podem conter gatilhos)

 

“Quando eu era criança,  às vezes eu ia dormir e brincar com um primo meu que é quatro anos mais velho. Eram brincadeiras inocentes do tipo brincar de ninja ou algo do tipo, mas algumas vezes a gente ia para o quarto para brincar também e aí vinha a malícia dele, às vezes até com algum amigo junto em que eles ficavam passando a genitália no meu rosto, ou na minha bunda. A maioria das vezes era com roupa mas já aconteceu de tirarem o membro para fora, eu não lembro ao certo mas acho que eu devia ter uns 10 anos ou talvez menos. Até quando íamos tomar banho as vezes ele forçava [...] Na época não sabia muito a respeito, mas eu acabei fazendo as vontades, não sei dizer se eu gostava ou não. De qualquer forma, hoje em dia não fico pensando muito sobre, mas isso me envolveu desde criança, a procura por pornografia e meio que acaba ferrando com a mente consumir isso. Sobre as sequelas, hoje em dia quando lembro eu fico extremamente com nojo de mim, e em relações sexuais eu tenho um certo receio de praticar, porém se foi por causa de traumas em relação a isso ou não, não faço ideia. Hoje tenho 24 anos mas procuro não pensar muito sobre”. Paulo, 24 anos.

 

“Quando eu era criança, deveria ter uns 8,9 anos, eu tinha um primo mais velho, de uns 14, que começou a frequentar minha casa nas férias. Eu não gostava muito de brincar com ele, mas a minha vó falava para eu ir e eu tinha que aceitar. A gente ficava o dia todo brincando no barranco de terra e coisas assim. Até que um dia, depois de brincar, estávamos só nós dois sentados perto um do outro, comendo, e ele começou a colocar a mão na minha perna e apertar minhas partes íntimas enquanto me olhava e perguntava "e isso aqui o que é hein", nunca vou esquecer do olhar e do sorriso malicioso que ele tinha. Era horrível e ele fazia isso direto, mas eu tinha muito medo de contar para alguém e ele fazer alguma coisa, porque ele sempre pedia para eu ficar quieta. No dia que ele foi embora, fui chorando e contei para minha mãe e minha tia, elas ficaram muito bravas com ele, mas também brigaram comigo por não ter contado antes. Depois que isso aconteceu, eu me senti péssima, na minha adolescência eu tinha muito medo quando alguém chegava muito perto de mim e, por isso, demorei mais que os outros para beijar e fazer outras coisas. Até hoje, com 28 anos ainda me sinto suja, me sinto um objeto, tenho medo que cheguem muito perto e me sinto péssima com os olhares. Eu ainda não consegui abrir mão desse medo de ser tocada, eu namoro uma mulher atualmente e fico feliz que ela entende isso e é compreensiva comigo”. Janaína, 28 anos.

 

“Quando eu era criança (não tinha mais que 5 anos) eu tinha um primo mais velho que costumava tocar no meu corpo, tirar minhas roupas, ter assuntos sexuais comigo e diversas outras coisas inapropriadas. Nunca me esqueci. Isso me fez iniciar muito cedo em minha vida o tópico da sexualidade, me fez buscar na internet coisas inapropriadas para minha idade, me colocou em situações perigosas, além de ser extremamente doloroso ver como todo mundo tem carinho por um homem que me fez mal e ninguém nem imagina isso”. Lívia, 26 anos.

 

“Toda vez que alguém me acorda pela madrugada, a lembrança vem à tona, eu lembro daquela mão terrível no meu corpo, dele dizendo que estava tudo bem e a mulher na porta dizendo para ele não mexer comigo”. Alice, 30 anos.

 

“Quando eu tinha 7 anos, tinha uma amiga que morava na frente da minha casa. Ela era uma criança totalmente negligenciada, quem cuidava dela eram seus avós. A família era conhecida no bairro por seus problemas íntimos, um tio era usuário de crack, outros não tinham afinidade com trabalho, mas o mais famoso deles era o patriarca. Eu conheci a família com 5 anos, quando me mudei para o bairro, obviamente eu criei uma amizade muito forte com a L., neta deles. Nós brincávamos todo dia, ela morava na frente da minha casa. Eu raramente entrava na casa dos avós dela, minha mãe detestava, não sentia um ar positivo, e meu pai era policial, conhecia o bairro e a vizinhança como ninguém, inclusive sempre me proibia de ir lá pelo tio usuário da L. A preocupação dos meus pais era real, eu fui abusada na única vez que entrei naquela casa. A avó de L. estava fazendo coxinhas caseiras e me convidou para entrar, ela tinha recebido também uma doação enorme de roupas e eu e L. fomos brincar e mexer nas roupas. Quando L. saiu do quarto onde as roupas estavam, eu fiquei sozinha brincando e o vô dela me abordou, tentou me beijar a todo custo, eu era uma criança de 7 anos não fazia ideia do que era aquilo, fiquei me debatendo contra ele e fechando a boca, a cena deve ter durado uns 5 minutos que pareceram 5 dias para mim. Eu não lembro o que ele tentava me falar, mas tentava me beijar. Eu saí correndo e, na correria, dei de frente com a avó da L. com a panela mais quente do mundo cheia de massa de coxinha. Eu me assustei e ela também, queimei o braço, é claro. Fui correndo para casa, nunca contei para ninguém. Se meu pai soubesse teria matado o vizinho a sangue frio, como recado. Ainda tenho a marca de queimadura no braço e toda vez que olho para ela eu lembro o que aconteceu comigo há mais de 10 anos”. Ingrid, 21 anos.

 

“Eu passava as férias no sítio dos meus avós com alguns primos e irmão. Numa noite, meu primo de 14 anos (eu tinha 7 anos), na hora de dormir, me chama quando todos já estavam dormindo e me pede um beijo na boca. Eu fiquei com nojo e não quis. Então ele pede para colocar a mão dentro da minha calcinha e eu deixei, porque não tinha ideia que isso era abuso sexual. Ele ficou mexendo ali e depois voltei para minha cama. No dia seguinte ele mostrou os pelos pubianos dele, enquanto meu irmão também via e os dois davam risada. Meu irmão (10 anos), nesse dia, chegou para mim e falou que tinha visto que eu tinha mostrado a "perereca" para o meu primo. Eu fiquei envergonhada e ele usava isso como chantagem para conseguir coisas pelos próximos anos, ameaçando contar para o meu pai. Eu não contei para mais ninguém na época. Por muito tempo continuei envergonhada por achar que a culpa tinha sido minha, até descobrir, muito tempo depois, que não era. Esse foi um dos motivos de eu me afastar do meu irmão e ainda tenho muita mágoa. Quanto ao meu primo, nunca mais tocou no assunto e eu só quero que morra. Vejo ele apenas uma vez por ano e tenho muito nojo. Nunca contei esse fato para alguém da minha família por receio de me julgarem. Sei que isso foi um dos motivos da minha saúde mental ser uma merda e acabou com minha relação com meu irmão.” Julia, 28 anos.

 

“Eu tinha 9 anos quando aconteceu comigo, as memórias são um pouco nubladas. Eu lembro que estava na casa da minha avó paterna e ela havia ido deitar, eu fiquei na sala com o meu primo que era mais velho que eu, devia ter uns 15 anos, eu acho. Ele disse que era uma brincadeira e que eu não podia contar para ninguém. Quando estava acontecendo, eu até tentei chamar minha avó, mas ele disse que eu não ia mais poder ir na casa dela e que ninguém ia acreditar no que eu estava dizendo se eu contasse depois. Ele me fez tirar a roupa e tudo mais, houve penetração com o dedo e foi horrível. Eu contei para minha mãe anos depois, após ter falado com minha terapeuta, eu já era maior de idade quando aconteceu de eu ter coragem pra contar”. Carol, 32 anos.

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