Daniel Simon e Eliezer Kailer
Uma Cena Underground
Arranjos e desarranjos, a riqueza oculta da música fora do convenciona.
Com pouco mais de dois séculos de existência, Guarapuava se localiza no centro-sul – ou centro-oeste tal qual o nome da universidade – do estado do Paraná. A cidade que já possuiu o coração do estado – mas que hoje se encontra na cidade de Pitanga – já foi palco de inúmeros shows nacionais e internacionais. Os escoceses do Nazareth fizeram palco na cidade em 2010, a lenda do reggae Jimmy Cliff lotou o ginásio Joaquim Prestes em 1994, o Sepultura, considerado por muitos como a maior banda brasileira de todos os tempos, fizeram história tocando em 2014.
Muito se fala a respeito da cena musical de Guarapuava – ao menos pelos músicos e público pertencentes a essa cena – e sobre a produção artística da cidade que já contou com mais de 80 bandas há pouco mais de uma década. Em vários períodos a música se fez presente em eventos públicos e principalmente naqueles que podemos chamar de underground, o lugar onde residem artistas que estão longe dos grandes palcos e shows, mas que mantêm ainda assim viva a chama da criação musical.
Segundo o sociólogo Deena Weinstein, em seu livro intitulado Heavy Metal: a cultural sociology de 2000, o underground se divide de duas formas, segundo sua analogia dantesca. Primeiro como purgatório, no qual bandas e estilos mais populares acabam nascendo neste local e subindo essas escadas para o céu do estrelato pop. Por outro lado, existe o underground enquanto inferno, no qual a música é extrema, tanto em termos líricos quanto em sonoridade, dessa forma, as bandas que são do tipo infernal têm consciência do seu local e não têm qualquer esperança ou desejo de adentrar a este paraíso.
Várias bandas da cena local acabaram rompendo a bolha do underground municipal e indo para diversos lugares, como o Satisfire, que acabou fazendo turnê na região Nordeste, ou Ultra Violent, que abriu shows na cidade de São Paulo para os lendários irmãos Cavalera (fundadores do Sepultura). Ao final, Guarapuava acaba tendo sua cena costurada constantemente, com bandas locais influenciando entre si e novas bandas o que acaba acarretando sempre em uma renovação de músicos e bandas.
Em 2006 o já veterano da cena, Mackey Pacheco criou a banda Kingargoolas, a primeira banda de rock instrumental – ou surf rock – da cidade. Fazendo música autoral, a banda acabou organizando seus próprios festivais, pois desbravava um campo sonoro novo nas terras guarapuavanas. Na primeira década do século XXI, uma série de bandas do cenário nacional underground fizeram shows e dividiram o palco com bandas locais, como Dead Fish, Merda, Claustrofobia, Dance of Days marcaram os primeiros anos do novo milênio no interior do Paraná. O professor de História Rodrigo Fidélis Renauer relembra: “na época, a cena lotava os lugares, as pessoas saiam da faculdade, do trabalho e iam direto para esses eventos”. Algumas casas de show, como Casa Amarela, Boliche e Portal do Lago foram palco de muitos eventos desta cena musical local nesse período.
A banda Kingargoolas lançou seu primeiro disco em 2013, sete anos após iniciarem suas atividades. Dois anos depois do primeiro disco veio o full Tales from the Instro Zone de 2015. Após várias turnês dentro e fora do estado, a banda foi convidada para tocar no Surf Joe Summer Festival na Itália em 2018. Na ocasião, a banda acabou tocando em outras oito datas no velho continente. “Tinha gente de outras cidades vindo nos ver”, relata Mackey ao lembrar da conversa que teve com o público de um dos shows que fizeram na Holanda. Ainda no mesmo ano, a banda lançou o EP Dr. Gori Is a Tiki, que abriu portas para shows no México e uma turnê que acabou não acontecendo nos EUA. A banda encerrou suas atividades em 2021, por conta da pandemia e das dificuldades de manter a rotina, mas para alegria de muitos retornou dois anos depois.
A Ultra Violent foi fundada em 2008 com membros das bandas Fake Hate e Plastic Water, que se juntaram para tocar uma mescla de metal groovado e hard core. Em seu currículo, a banda conta com diversos shows, alguns ao lado de figuras de renome como Cavalera Conspiracy, Sepultura, Ratos de Porão, Surra, Project 46 e Nervosa. Durante os 16 anos de música, a banda gravou dois EPs, o homônimo em 2010 e Ansiedade em 2023, e singles como Um passo para trás e Sick scars on me, que repercutiram no cenário nacional.
O líder da banda, Guilherme Rocha, relembra sobre quando começou a tocar na cena local e como a troca de experiências com outros músicos foi de extrema importância para a sua formação enquanto músico e compositor. “Satisfire era uma banda que eu curtia demais. Mais tarde trabalhei com o Alessandro, baterista da banda que produziu o material que lançamos com a Ultra Violent”, relembra Guilherme. Atualmente a banda Ultra Violent vem produzindo material novo para lançar em 2025.
Além de músico, Guilherme Rocha também atuou organizando eventos na cidade de Guarapuava, trazendo pela primeira vez a banda Nervosa (2011), antes dela despontar no cenário internacional. Porém, as dificuldades de trazer bandas de outros lugares para a cidade acabou fazendo com que Guilherme deixasse de focar nos eventos. “Trazer uma banda diretamente de São Paulo para cá, sem ela estar em turnê, acaba saindo muito caro, é a passagem de ida e volta dos músicos, é a alimentação, a hospedagem, tudo acaba pesando. E muitas vezes o evento acaba não pagando nem ao menos os custos disso tudo”, relata.
Nascida oficialmente em 2023 a banda Os Frentista foi criada por músicos iniciantes na cena local e que se influenciaram tanto por bandas locais que mostravam que era possível se fazer rock em Guarapuava quanto por bandas capixabas como Mukeka di Rato e Os Pedrero. Tocando um hardcore punk com letras divertidas e bem humoradas, a banda lançou seu primeiro trabalho em 2024 intitulado Misto Cobra Y Rato e já fez shows em diversas cidades do Paraná. Para Pedro Follador, baixista e vocalista da banda, o principal objetivo de Os Frentista é se estabelecer na cena e se consolidar no underground. “Queremos tocar no máximo de locais possíveis e rodar por toda parte, produzir, compor, gravar e lançar para que o máximo de pessoas possam nos ouvir”, completa.

Guilherme, Baterista dos Frentista. Foto: Eliezer Kailer
Para conhecer o som das bandas entrevistadas acesse nossa produção audiovisual intitulada “Ruído da cena”, acesse o link abaixo:


